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domingo, 25 de outubro de 2009

1ºCOL; CDN 3 - Cultura: privilégio dos homens?

Um ótimo artigo do site "Com Ciência" sobre se existe ou não cultura animal. Boa leitura!! ahh, e não, não existem macacos mafiosos :P.


Cultura: privilégio dos homens?
Por Susana Dias

Em vários animais já foram descritos casos de comportamentos inventados por um indivíduo e aprendidos por outros do grupo. Há casos clássicos entre os primatas. Em chimpanzés têm sido observadas as possibilidades destes se reconhecerem e atribuírem individualidades a outros de sua espécie, de classificarem plantas e selecioná-las para sua alimentação, de usarem ferramentas para obter alimento, de ensinarem a seus filhotes, de cooperarem para solucionar problemas e de criarem estratégias sociais de comunicação, inclusive aprendendo linguagens de sinais dos humanos. Esses comportamentos descritos por pesquisadores das ciências naturais escapam às explicações genéticas e têm sido associados à noção de cultura em animais. Mas seriam esses resultados suficientes para dizer que os animais são seres culturais? A resposta à questão não parece ser simples mesmo para os pesquisadores. Para alguns, afirmar categoricamente que animais não têm cultura é esquivar-se de um interessante debate que os resultados dos estudos em comportamento animal podem promover. 

O uso da noção de cultura pelas biociências recoloca a discussão entre ciências naturais e humanas, em especial entre a biologia e a antropologia. “Não há mais consenso acerca de que os seres humanos sejam os únicos a desenvolver vida coletiva complexa, produzir cultura, lutar por status e poder, reconhecer seus semelhantes e repassar conhecimentos para as gerações futuras”, comenta a cientista social Eliane Sebeika Rapchan, da Universidade Estadual de Maringá. Para ela, esses resultados colocam a necessidade de uma aproximação entre as áreas do conhecimento. Uma aproximação, entretanto, “difícil e delicada” porque “tais resultados têm o potencial de impactar as representações da natureza e, ao mesmo tempo, promover alterações nas relações entre as disciplinas envolvidas no problema, trazendo contribuições para o debate sobre as relações natureza/cultura ou ainda, para a redefinição das fronteiras do que se entende por humano e não-humano”, argumenta.

Animais têm cultura?

O ecólogo Paulo Sérgio Moreira Carvalho de Oliveira, do Departamento de Zoologia, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz que as pesquisas em comportamento animal têm levado a uma resposta afirmativa para a questão, ou seja, animais têm cultura. Oliveira define cultura como “um traço comportamental que passa para a geração seguinte por aprendizado ou por imitação” e a transmissão cultural como “a transferência de informação através do ensino ou do aprendizado social”. Apresenta vários exemplos observados em animais: mães guepardo que machucam presas para ensinar os filhotes a caçar; chimpanzés que usam folhas como verdadeiras esponjas para recolher água de locais de difícil acesso, como troncos ocos de árvore; a criação de estratégias, por macacos, para quebrar frutos, batendo-os contra pedras ou árvores; chimpanzés que usam gravetos para comer cupins, como se fossem “palitinhos de restaurante chinês”. Estes comportamentos são transmitidos entre os indivíduos dos grupos por imitação. “Qual a diferença entre o que faz o chimpanzé e uma mãe que ensina uma criança a comer? Quando ensinamos um filho a comer com um garfo, ou ensinamos um filho a caçar, a buscar alimento, podemos considerar que esses ensinamentos são traços culturais que estamos transmitindo?”, pergunta-se o ecólogo. “Bichos fazem isso. Eles fabricam coisas, os filhos aprendem com os pais e o uso dos instrumentos é perpetuado por gerações, por aprendizagem”, argumenta. (conheça mais do pesquisador em sua página pessoal).

Catação, aprendizagem social, conflitos, cuidado parental, desenvolvimento de técnicas de forrageamento, práticas sexuais, posturas corporais, criação e uso de ferramentas, relações entre mães e filhotes, hierarquia, são alguns dos aspectos dos comportamentos animais que têm sido observados por estudiosos das ciências naturais e que são relacionados à noção de cultura.

Porém, um dos problemas de se afirmar a existência de cultura em animais, para o antropólogo Guilherme José da Silva e Sá, está na noção “restrita” de cultura que tem sido utilizada. Perguntado se os animais produzem e transmitem cultura, respondeu: “Se cultura significa somente produzir e transmitir práticas, com as quais nós seres humanos nos identificamos, eu diria que sim, mas tenho certeza de que qualquer não-humano ficaria insatisfeito com as limitações implicadas nessa definição”. Afirmar simplesmente que os animais não têm cultura ou que cultura é exclusividade dos seres humanos é, para o antropólogo, esquivar-se de um debate importante para a biologia e antropologia. O debate, que no Brasil atualmente não acontece, ou está restrito a pequenos fóruns, permitiria trazer discussões que estão na relação entre essas duas áreas do conhecimento, bem como repensar suas formas de olhar e produzir conhecimentos sobre humanos, não-humanos e suas relações.

Guilherme Sá, que faz doutorado em antropologia no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e atua como professor na Universidade Federal de Santa Maria, propõe que toda e qualquer discussão envolvendo a questão da cultura em não-humanos surja a partir de categorias próprias aos animais. “Nada muito diferente daquilo que conhecemos em antropologia ao falar que uma determinada cultura tem seu significado e lógica própria. É claro que isso se torna ainda mais árduo em função de nossa inadequação para operar do ponto de vista de um não-humano na sociedade ocidental”, diz. Para o antropólogo, os animais (não-humanos) sempre foram seres culturais, não porque apresentam este ou aquele traço específico, ou porque realizam determinada prática ou função, mas simplesmente porque há muito estão inseridos em relações culturais. Ele sugere um deslocamento da atenção dos termos humano e não-humano para as relações que os mediam, como possibilidade de se encontrar cultura. “Uma idéia de cultura em transformação e que relaciona esses coletivos de humanos e não-humanos”, diz.

A cientista social Eliane Rapchan também sugere que as ciências naturais ampliem a noção de cultura que vêm utilizando. No caso das “culturas de chimpanzés”, objeto de seu estudo de doutorado, ela identifica um isolamento na forma como cada aspecto do comportamento é tratado pelos pesquisadores. A ausência de estudos que focalizem as interações de um comportamento sobre outro, no interior do mesmo grupo dificulta, na opinião de Rapchan, “o acesso à existência de algum tipo de sentido nesses comportamentos, caso exista. Esse é o outro aspecto importante pois o significado é algo central para a noção antropológica de cultura”. A pesquisadora ressalta que, para a etnografia, o registro do comportamento é incompleto se não estiver de algum modo associado aos seus próprios sentidos. Por isso a dimensão simbólica torna-se central para a antropologia. Ela destaca os estudos que focalizam a capacidade de simbolizar entre os não-humanos, como os propostos por Steven Mithen, como uma “abordagem que melhor atende ao debate sobre a existência ou não de cultura entre os chimpanzés”. (leia mais no artigo da pesquisadora: “Chimpanzés possuem cultura? Questões para a antropologia sobre um tema 'bom para pensar'”

Bicho também é gente

A expressão acima leva ao extremo a idéia de humanização dos animais. Embora não seja nesse extremo que se situam os estudos em comportamento animal, a biologia aposta na humanização dos animais como forma de compreender seus comportamentos. Os animais usam ferramentas, tais como os humanos, ensinam os filhos, tais como os humanos, fazem guerra e política, tais como os humanos. Nesse caminho, também estão alguns movimentos em defesa dos animais, dos direitos dos animais, que apostam na aproximação entre humanos e animais para criar uma nova sensibilidade em relação aos não-humanos. O inverso também tem sido uma aposta das ciências biológicas: somos animais também! Entretanto, a antropologia aponta problemas nessa forma de aproximação tanto para se pensar as singularidades dos humanos, quanto dos não-humanos.

Para Guilherme Sá o problema reside em caracterizar cultura como um conjunto de práticas humanas e, mesmo sem perceber, projetá-las sobre os não-humanos. O olhar antropomorfizado (ver os animais como homens) limitaria a compreensão da cultura dos animais. “Certamente haverá muito mais cultura em um animal do que aquela a qual somos limitados a entender enquanto humanos”, diz. O desafio seria pensar que, se os animais possuem cultura, muitas coisas que eles fazem não são denominadas de “culturais” porque não se assemelham com a cultura em humanos. “Para falar em ‘culturas animais’ seria preciso pensá-la ontologicamente, da mesma forma que abordamos as culturas humanas. É preciso que nos aprofundemos nas relações intrínsecas não-humanas, e para isso teremos que diminuir a distância que nos separa deles. Se o antropomorfismo é incontornável, que pelo menos este se dê na relação que nos aproxima enquanto condição, e não naquilo que nos distingue enquanto espécie”, sugere.

Já Elenise Cristina Pires de Andrade, bióloga, professora do ensino médio e doutoranda da Faculdade de Educação da Unicamp, acredita que o uso da noção de cultura pelos estudos em comportamento animal irá circunscrever o entendimento desses seres. “A noção de cultura limita o entendimento de humanos e não-humanos, desenha uma estrutura de memória, visibilidade, conhecimento, sensibilidade. Cria uma bolha cultural identitária, demarcatória dos indivíduos, sejam eles humanos ou não”, diz. Na opinião da pesquisadora, que no mestrado buscou pensar “o ser ou o tornar-se humano” nos currículos de ciências, uma ontologia dos não-humanos continuaria em busca da essência desses seres, assim como acontece com a noção de cultura em humanos. “Como fazer um deslocamento que não procure as diferenças a partir de uma essência de humanos e não-humanos?”, pergunta-se. E sugere que talvez seja necessário pensar “que o humano passa por outros lugares, nas relações com todos os seres-objetos, habitantes do mundo. A saída talvez seja não humanizar os animais, mas desumanizar o humano, não buscar mais sua essência, suas características intrínsecas, mas tomá-lo em constante transformação, devir-qualquer-coisa”. (Conheça mais sobre as idéias da pesquisadora lendo o artigo “Vejo o que desejo, desejo o que vejo: perturbações curriculares com/nas/nos alunas, alunos e professora de pedagogia das faculdades Network-SP”


terça-feira, 23 de junho de 2009

2ºCOL; 2ºBI - Elvis - A explosão do rock


Os cadernos do segundo bimestre focam bastante a cultura jovem. A unidade três inclusive conta uma breve história de como os jovens adquiriram uma “cultura própria”. O que poucos talvez saibam é a importância de Elvis Presley nesse processo todo...
Pra quem quer conhecer um pouco mais o assunto, segue ai uma ótima reportagem de Aventuras na História sobre o “Rei do Rock”. Boa Leitura!!


Elvis - A explosão do rock
Há 50 anos, ele gravou seu primeiro disco, marco inicial de uma revolução chamada rock’n’roll. Elvis morreu em 1977 (a despeito do que acreditam seus fãs), mas as mudanças que ele iniciou continuam influenciando os jovens do mundo todo
POR:André Barcinski


Em julho de 1954, o telefone tocou numa casa simples da periferia de Memphis, Tennessee, no sul dos Estados Unidos. Gladys, uma senhora na casa dos 40 anos, atendeu e ouviu a voz de um homem, que se apresentou como Scotty e perguntou por seu filho. “Elvis não está. Quer deixar recado?”
O “Scotty” era Scotty Moore, um guitarrista local de algum sucesso que procurava um cantor para sua banda e recebeu de um amigo, Sam Phillips, a dica sobre o tal Elvis.
Phillips, que tinha a fama de descobrir novos talentos, era dono de uma pequena gravadora em Memphis, a Sun Records, e oferecia a qualquer interessado a chance de gravar um disco por 4 dólares. Foi atrás dessa chance que em meados de 1953 Elvis Presley, então com 18 anos, entrou nos estúdios da Sun. Ele gravou duas faixas. Em janeiro do ano seguinte voltou e gravou mais duas. Sam não ficou muito impressionado com ele, mas anotou seu nome e telefone.
Na época, Elvis ganhava a vida dirigindo caminhão, mas não abandonara o sonho de ser cantor.
Elvis Aaron Presley nasceu em 8 de janeiro de 1935 em Tupelo, Mississípi. Sua mãe deu à luz gêmeos, mas o primeiro, Jesse, nasceu morto. Os Presley eram pobres. O pai, Vernon, trabalhou como leiteiro, carpinteiro e motorista e chegou a passar oito meses preso por falsificar cheques.
Elvis adorava música desde pequeno, gostava dos cultos da Igreja Pentecostal, onde sempre havia cantorias, e, aos 10 anos de idade, recebeu um prêmio num concurso de canto. Em 1946 ganhou sua primeira guitarra, presente de dona Gladys. Em 1948, a família se mudou para Memphis. Elvis foi matriculado numa escola para brancos, mas costumava freqüentar os bairros negros para ouvir seus bluesmen favoritos, como Furry Lewis e B.B. King. Passava as noites ouvindo no rádio música country, blues, gospel e até música clássica.
Quando Elvis respondeu ao telefonema de Scotty Moore, sabia que aquela poderia ser a chance pela qual esperava. Na sessão que hoje é considerada o marco zero do rock, Elvis Presley produziu um clássico: “That’s All Right”, versão de um antigo blues de Arthur “Big Boy” Crudup, que ele acelerou até torná-lo um autêntico rock’n’roll. “Quando Sam Phillips ouviu aquilo não acreditou. Era o que vinha buscando havia anos: um branco que pudesse cantar como um negro”, afirma Peter Guralnick em sua biografia de Elvis, Last Train to Memphis (“O Último Trem para Memphis”, inédito em português).

Preto no branco
A questão racial esteve presente na carreira de Elvis desde o início. Ele era um garoto branco apaixonado por música negra, fosse ela gospel, rhythm’n’blues ou country. Sua fama abriu espaço para um sem-número de roqueiros negros, como Little Richard, Chuck Berry e Bo Diddley. E ele nunca fez segredo sobre as origens de sua música: “Os negros vêm cantando dessa forma há muitos anos”, dizia. “Mas ninguém prestava atenção neles, até que eu apareci. Eu aprendi tudo com eles.”
Falar uma coisa dessas nos anos 50 era um ato de coragem. No sul dos Estados Unidos, as escolas eram segregadas. Havia lojas de brancos e lojas para “pessoas de cor”, emissoras de rádios de “música branca” e de “música negra”. Mas Elvis queria ser ouvido por todos.
E logo passou a ser. Dois dias depois da histórica gravação em Memphis, o disc-jóquei Dewey Phillips tocou “That’s All Right” em seu programa Red Hot and Blue, e Elvis tornou-se uma sensação local. Vieram os primeiros shows e sua fama começou a se espalhar depois que ele descobriu o que fazia as meninas gritarem tanto. Após uma apresentação, perguntou a Scotty Moore: “Por que elas gritam tanto?” O guitarrista respondeu: “É sua perna”, disse. “É o jeito como você mexe a perna.”
Nos conservadores anos 50, o estilo explosivo e sensual de Elvis o diferenciava dos crooners bem-comportados, estáticos atrás dos microfones, entoando músicas de amor com suas vozes perfeitas. Elvis sacudia os quadris, grunhia e soltava longos suspiros no meio das músicas. Era uma revolução, pelo menos para o público branco, que não tinha visto gente como Little Richard e Chuck Berry em ação.
Em 1955, Elvis conheceu o coronel Tom Parker, um misterioso imigrante holandês que havia tentado a sorte no circo e em várias esferas do show business, até tornar-se um respeitado agente musical. Parker passou a gerenciar a carreira de Elvis e seu apurado tino para negócios ajudou a tornar o cantor um astro. Parker convenceu a gravadora RCA a comprar o passe do cantor à Sun, pela enorme (para a época) quantia de 40 mil dólares. A RCA era uma gravadora grande, porém pouco ousada. Os principais nomes de seu cast eram cantores românticos como Perry Como e Harry Belafonte. Elvis era um peixe fora da água na RCA.
Mas logo virou um tubarão. Em 1956 ele se tornou uma celebridade, gravando um sucesso atrás do outro, entre eles “Heartbreak Hotel”, “Blue Suede Shoes”, “Don’t Be Cruel” e “Love me Tender”. Estreou no cinema no filme Love me Tender e lançou seu primeiro LP, Elvis Presley. Na lista dos compactos mais vendidos do ano, ficou com os dois primeiros lugares, desbancando gente famosa como Frank Sinatra, Dean Martin e Pat Boone.

Rei do pop
O sucesso atraiu as críticas. Os mais conservadores desprezavam Elvis e consideravam sua música um lixo. Era difícil aceitar que um caipira rebolador pudesse vender mais discos que cantores consagrados como Sinatra e Belafonte. Em janeiro de 1957, Elvis apareceu no programa de TV de Ed Sullivan, um dos mais populares do país. Mas só quem esteve lá pôde vê-lo de corpo inteiro. A emissora, preocupada em não chocar os telespectadores, filmou Elvis só da cintura para cima. Na época, ele ganhou o apelido de “Elvis, the Pelvis”. Estava acesa a chama sob o caldeirão do rock, onde ferveria toda uma geração de jovens. Ninguém mais poderia detê-los.
Nem o exército. Em 1958, Elvis foi convocado e, numa jogada publicitária, Parker incentivou-o a ir. Antes, porém, fez com que o cantor deixasse gravados vários compactos. Parker recusou qualquer tipo de tratamento especial a Elvis, com a certeza de que isso seria ótimo para a imagem do cantor. E foi.
Depois de passar pelo treinamento no Texas, Elvis foi para uma base militar na Alemanha, onde ficou 18 meses. Lá, cumpriu funções normais dos soldados, como fazer exercícios e montar guarda nos portões da base. Durante esse tempo, não cantou em público, mas participou de dezenas de sessões de fotos para mostrar como era sua vida de militar. No auge da Guerra Fria, Elvis foi o melhor garoto-propaganda com que o exército americano poderia ter sonhado. O afastamento não diminuiu o interesse por suas músicas, pelo contrário. Mesmo com ele ausente, a RCA lançou vários compactos de sucesso, como “Wear my Ring Around your Neck”, “Hard Headed Woman”, “One Night” e “A Big Hunk o’Love”.
No quartel, Elvis conheceu as drogas. Introduzido por um sargento que recomendava pílulas de anfetaminas aos soldados para mantê-los atentos e eficientes nos exercícios, ele iniciou uma longa dependência química, que viria a ter resultados trágicos. No final de sua temporada na Europa, Elvis conheceu a adolescente Priscila Beaulieu, com quem iniciou um romance.
Em março de 1960, Elvis deu baixa. A volta para casa foi problemática. E triste. Sem a mãe por perto (dona Gladys morrera em 1958), sua vida entrou numa espiral descendente.
Profissionalmente, sua carreira passava por uma grande mudança. Saem as excursões e shows, entram os filmes. Durante toda a década, a única maneira de os fãs verem seu ídolo era comprando ingressos para o cinema. Mas mesmo longe dos palcos, os discos de Elvis – quase todos gravações da trilha sonora dos filmes – continuavam vendendo bem, embora a concorrência estivesse muito mais forte. O rock já dava pinta de que viraria uma fábrica de ídolos, com o surgimento de grupos como os Beatles e os Rolling Stones. Elvis parecia descontente com a direção de sua carreira, e reclamava com o coronel Parker da qualidade dos filmes que estava fazendo, pérolas como O Seresterio de Acapulco, Meu Tesouro É Você e Garotas, Garotas e Garotas. O ritmo de trabalho era massacrante: entre 1956 e 1969, ele estrelou nada menos que 31 longas-metragens.
Em casa, a coisa ia ainda pior. Elvis não fazia segredo do vício em anfetaminas e começou a recomendar as pílulas para amigos e músicos de sua banda. Cada vez mais rico e drogado, Elvis aos poucos foi se tornando um recluso em sua mansão, Graceland. Lá, cercou-se de um grupo de empregados e amigos, que ficou conhecido como a “Máfia de Memphis”. Em 1961, Priscila se mudou para Graceland. Seis anos depois, eles se casariam e teriam Lisa-Marie, única filha do casal.
Elvis estava estranhamente obcecado. Colecionava armas e distintivos policiais. Passou a dar declarações de que sua missão era “ajudar os Estados Unidos a acabar com o risco das drogas e do comunismo” e, numa cena hoje lendária, visitou a Casa Branca para pedir ao presidente Richard Nixon que lhe outorgasse uma credencial do FBI. A foto de Nixon e Elvis apertando as mãos é uma das imagens mais bizarras e emblemáticas dos anos 70. Elvis, o antigo rebelde, cumprimentando o homem que, provavelmente, estava entre os que chamavam sua música de “lixo”, nos anos 50. Foi o início do fim de Elvis Presley.
A década de 70 foi um pesadelo interminável para Elvis. Ele havia se tornado um “prisioneiro” em Graceland, tomando anfetaminas, barbitúricos e tranqüilizantes e sendo vigiado por guarda-costas brutamontes. Embora suas turnês em Las Vegas batessem recordes de arrecadação, sua música caiu de qualidade. Ele engordou muito e chegou a ter um colapso antes de um show na Flórida, que teve de ser cancelado.
No fim de 1971, Priscila o abandonou, levando a filha Lisa-Marie. Amigos do cantor disseram que isso era o que faltava para o colapso emocional e físico de Elvis. Nos cinco anos seguintes, os dias alegres tornaram-se cada vez mais raros. Embora a adoração do público nunca tivesse diminuído e os shows estivessem sempre lotados (o especial de TV Aloha from Hawaii foi visto por 1 bilhão de pessoas), Elvis vivia infeliz. Sua saúde estava se deteriorando e as internações em clínicas de reabilitação e hospitais tornaram-se rotina.
A curta vida de Elvis Presley chegou ao fim em 16 de agosto de 1977. Por volta de 13h30, sua namorada, Ginger Alden, encontrou-o sem vida, deitado no chão do banheiro, em sua mansão. O rei estava morto.



Big bang: A vida e a carreira deElvis mudou tudo (e para sempre)no mundo da música


Infância:
1938
Elvis com 3 aninhos: filho único (depois que seu irmão gêmeo, Jesse, nasceu morto)
1942
A família Presley por volta de 1942: Vernon, Gladys e o pequeno Elvis. Pouco tempo depois, Vernon seria preso por falsificar cheques


50·s
1954
Elvis inventa o rock’n’roll. No estúdio da Sun ele grava “That’s All Right”
1956
Ele não era chamado "Elvis, the Pelvis" à toa: requebrando os quadris, em junho de 1956
1956
Em outubro, Elvis ensaia sua segunda participação no programa de TV de Ed Sullivan. Na primeira, as câmeras o filmaram apenas da cintura para cima.
1956
Durante as gravações de seu primeiro filme, Love me Tender. Ele estrelaria mais 30 longas-metragens
1957
Elvis comprou Graceland, uma antiga igreja, e fez da mansão seu esconderijo do mundo
1958
Vernon e Elvis lamentam a morte de Gladys: a vida de Elvis nunca mais seria a mesma
1958
Durante o período do exército, encontra outro ícone do rock americano, Bill Halley


60·s
1960
O sargento Elvis Presley volta da Alemanha, em 3 de março
1960
O encontro de dois monstros da música americana: Elvis e Frank Sinatra ensaiam para o programa de TV The Frank Sinatra Timex Show
1967
Elvis e a esposa, Priscila, mostram seu anel de diamante no dia do casamento: 1º de maio de 1967


70·s
1970

Elvis cumprimenta Richard Nixon no Salão Oval da Casa Branca, em dezembro. Elvis foi pedir ao presidente que o nomeasse para o FBI
1977
A decadência fisica era evidente: as roupas também não ajudavam.
1977

O rei descansa em paz: túmulo de Elvis em Graceland

Elvismania: O rei virou uma das marcas mais conhecidas no mundo


Elvis foi uma celebridade vivo. E, desde que morreu, sua fama só aumentou. Calcula-se que, nos últimos 50 anos, mais de 1 bilhão de seus discos tenham sido vendidos em todo o mundo. Em grande parte, o sucesso comercial de Elvis depois de 1977 deve-se a sua viúva, Priscila. Após a morte do marido, ela assumiu o controle de seus negócios e pressionou legisladores no Tennessee a aprovar uma lei que garantia aos herdeiros os direitos à imagem e lucros de pessoas falecidas. Priscila transformou o nome “Elvis Presley” numa marca. Hoje, ninguém pode comercializar nenhum produto com a cara de Elvis sem pagar uma parte à Elvis Presley Enterprises. Em outra jogada esperta, ela abriu Graceland ao público em 1982. Hoje, a mansão de Elvis recebe em média 675 mil visitantes por ano, que pagam até 18 dólares por um passeio. Elvis tornou-se um ícone da cultura pop e é, sem dúvida, a celebridade mais festejada e discutida da história. Nos últimos 27 anos, mais de 300 livros sobre ele foram publicados somente nos Estados Unidos.


Saiba mais:

Livros
Last Train to Memphis, Peter Guralnik, Abacus, 1995
Careless Love, Peter Guralnik, Brown USA, 2000 - Completíssima biografia dividida em duas partesElvis, Odair Braz Junior, Coleção “Para Saber Mais”, 2004

sábado, 6 de junho de 2009

2ºCOL; 1ºBI - Aculturação e Assimilação: Culinária Japonesa

Isso que eu chamo de aculturação EXTREME :P

Esse artigo da revista “Aventuras na História” casa muito bem com o conteúdo estudado no primeiro bimestre dos Segundos Colegiais; principalmente no que tange os assuntos aculturação e assimilação.
Foi publicado na edição 55 da revista (fevereiro de 2008), e está disponível também no site oficial da mesma (se quiser ler direto de lá, clique aqui). Boa leitura!!

Uma saborosa tradição, né?
Há mil anos, a culinária japonesa era apenas uma cópia do que se fazia na China e na Coréia. Saiba como ela se transformou numa arte sofisticada - e como os imigrantes a trouxeram para o Brasil
por Flávia Pinho

Quando a primeira leva de imigrantes japoneses desembarcou no Brasil, em 1908, trouxe um punhado de hábitos esquisitos. Imagine a cara dos caboclos paulistas diante da cena de pessoas comendo com o hashi (aquelas duas varetas usadas para levar o alimento à boca). Um século depois, algumas das tais esquisitices orientais acabariam integradas ao dia-a-dia dos brasileiros. Comer com pauzinhos virou moda até em lanchonetes e palavras como sushi e sashimi já fazem parte do vocabulário por aqui.
O que pouca gente sabe é que a comida japonesa que conhecemos é bastante moderna em relação à história milenar do Japão. Até o século 10, praticamente tudo o que se comia no país, como o arroz e o macarrão, era preparado de acordo com os costumes dos vizinhos, principalmente chineses – a grande potência da época – e coreanos. Foi nos séculos seguintes que as influências estrangeiras passaram a ser transformadas e adaptadas às condições e preferências locais. Nascia, finalmente, a autêntica gastronomia japonesa.

O grão e o pescado
Embora o peixe cru seja apontado com freqüência como a mais perfeita tradução da culinária japonesa, ele demorou bastante a ganhar espaço no prato. A base de tudo foi o arroz. Desde o século 3 a.C., o Japão cultiva regularmente esse grão em campos alagados. Foi em função dele que a sociedade rural japonesa se formou e que a economia do país se estruturou – no fim do século 19, os impostos nipônicos ainda eram pagos em arroz. Até hoje esse alimento, que deu origem a tantos rituais e cerimônias, simboliza a bonança e a fartura. “A refeição tem duas categorias de comida, o arroz e os outros pratos. Naturalmente, é melhor que ambos sejam deliciosos, mas se for preciso decidir qual terá prioridade, a tradição manda que seja o arroz”, diz o antropólogo japonês Naomici Ishige no livro The History and Culture of Japanese Food (“A história e a cultura da comida japonesa”, inédito no Brasil).
Não é de estranhar que a existência ou não de arroz por perto tenha pautado também a emigração. Os japoneses que deixaram o país no século 20 em busca de melhores condições de vida podiam até abrir mão da convivência com a família. Mas viver sem arroz era pedir demais. “As colônias japonesas que inicialmente se fixaram no norte da Bahia e em Pernambuco, onde não havia a tradição de plantar arroz, acabaram se mudando para São Paulo”, afirma Koichi Mori, professor do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo e autor de uma pesquisa sobre a culinária dos imigrantes japoneses. Como a espécie encontrada aqui era o popular tipo agulha, bem diferente da variedade que fazia sucesso no Japão, o jeito foi improvisar. “Os imigrantes passaram a prepará-lo à moda japonesa, sem qualquer tempero”, diz Mori.
Formado por um arquipélago, o Japão tem uma costa bastante extensa. E, por ser um ponto onde as correntes marítimas quentes do Sul se encontram com as águas frias do Norte, ela permite a existência de uma variedade enorme de peixes. Não por acaso, o japonês ainda é o povo que mais come peixe no mundo. E, além das condições naturais, há outro fator para a consolidação desse hábito alimentar: a religião. “O tabu de comer carne de mamíferos, originário do budismo, colocou o peixe na posição de principal alimento animal por muitos anos, e sem dúvida foi responsável por fazer do Japão a nação de amantes de peixe que é hoje”, escreve Naomici Ishige.
Mas, se o hábito de comer peixe é antigo, o pescado raramente chegava fresco às mesas do antigo Japão. Durante séculos, versões fermentadas em sal, algumas intragáveis para o nosso paladar, foram desenvolvidas como forma de preservar grandes quantidades de peixe após o fim da temporada de pesca. Em algumas dessas técnicas de conservação, caso do shiokara, o peixe era reduzido a uma pasta. Em outras, como o milenar narezushi, o pescado, misturado a arroz cozido, permanecia inteiro por um ano ou mais dentro de potes lacrados. A palavra “sushi” originalmente se referia a esse tipo de peixe longamente fermentado.
Só muito tempo depois, mais precisamente no fim século 17, uma nova receita começaria a aproximar o sushi da versão que comemos hoje. Consistia de uma combinação de arroz e peixe com sabor ácido causado pela adição de vinagre. Mais tarde, no século 19, esse novo sushi tornou-se popular nas ruas da atual Tóquio com o nome de nigiri-zushi. “Foi o estágio final na transformação do sushi de alimento preservado em fast food”, afirma Ishige.
O sashimi contemporâneo também é bem diferente do original. No século 8, textos já citavam uma receita chamada namasu: fatias de peixe cru eram servidas num molho feito de vinagre e missô (pasta de soja). O peixe já vinha misturado ao molho e ninguém reparava se tinha sido bem ou mal cortado. Só no século 15 o japonês passou a preparar o sashimi como faz hoje: peixe cru fatiado com maestria, para que o chef possa exibir toda sua habilidade de cortar e arrumar o peixe.
Para manter o costume de comer peixe, os imigrantes que chegaram ao Brasil em 1908 tiveram que aceitar algumas modificações. Como as colônias se estabeleceram nas plantações de café do interior de São Paulo, a quilômetros do mar, os únicos pescados disponíveis eram bacalhau salgado e sardinha em conserva. “Eles assavam um pouquinho e comiam com arroz, mas logo começaram a se encaminhar para Santos, na direção do litoral”, afirma o professor Mori. Enquanto isso, hábitos brasileiros, como o desjejum à base de café e pão, foram sendo assimilados.

As visitas e o chá
A partir do século 15, quando o comércio com outros países cresceu, uma enxurrada de novos sabores vindos do Ocidente (entre eles a abóbora e a pimenta) tomou conta do Japão. O açúcar, que antes era importado da China como medicamento, passou a ser comprado em grandes quantidades e, finalmente, produzido internamente. Em pouco tempo, receitas de bolos e doces desenvolvidas na Europa começaram a circular nas cozinhas japonesas, com uma ou outra modificação local.
No século 16, os navegantes portugueses e espanhóis trouxeram ainda mais novidades em seus navios. E acabaram por deixar marcas definitivas na culinária japonesa, principalmente nos textos dos menus. A palavra “tempura”, que dá nome a uma receita com alimentos empanados, por exemplo, muito provavelmente vem do português. “Há várias teorias da etimologia portuguesa. Uma aponta para a palavra tempero”, diz Ishige. E tem mais. O hikado, prato feito de atum em cubos, rabanete, cenoura e batata-doce cozidos com molho shoyu, vem do português “picado”. E algumas das guloseimas mais conhecidas do japonês também têm nomes portugueses, como konpeitô (confeito) e karumera (caramelo).
Na gastronomia japonesa, o século 16 também foi marcado por outro divisor de águas, a criação da cerimônia do chá. Inventado pelo monge zen Sen no Rikyû (1522-1591), o ritual mudaria para sempre os hábitos do japonês à mesa. No início, as reuniões para o chá eram cheias de ostentação. Rikyû criou regras em que prevaleciam a simplicidade e a eliminação do supérfluo. Logo essas características saíram do ato de tomar chá e se transmitiram para as refeições como um todo.
Banquetes extravagantes, por exemplo, foram banidos do Japão. “Os pratos do jantar medieval eram inteiramente cobertos de comida, empilhada simetricamente”, escreve Ishige. Com o ritual do chá, o alimento ganhou outro visual. “Passou a ser arrumado com cautela, valorizando a beleza dos espaços vazios, um princípio que sobrevive hoje como a base da estética da cozinha japonesa.”

Cozinha fechada
Se o século 16 foi de portas abertas às influências estrangeiras, o período a seguir seria de isolamento. Durante o período Edo (ou Tokugawa), entre 1603 e 1867, o Japão foi dominado pelos líderes militares conhecidos como xoguns. Eles baniram o cristianismo e expulsaram os estrangeiros do país, fechando as fronteiras para o comércio internacional. Foi quando se consolidou a gastronomia do Japão. “Esse período assistiu ao surgimento do que são hoje considerados os valores supremos da culinária tradicional japonesa”, afirma Ishige. “A maioria dos pratos tradicionais comidos hoje data desse período de reclusão.” Hábitos refinados, nascidos e aprimorados nas cozinhas da aristocracia, foram gradualmente chegando a outros níveis da sociedade. Nesse tempo também surgiram os primeiros restaurantes japoneses.
A partir de 1853, os Estados Unidos começaram a pressionar pela reabertura do Japão ao comércio internacional. Em 1868, com a Restauração Meiji (que tirou o poder dos xoguns e o devolveu à família real), os japoneses redescobriram o mundo. Ingredientes até então tidos como exóticos, como a carne bovina e o leite, entraram na dieta cotidiana. Utensílios e móveis ocidentais, como os talheres e a mesa de jantar, foram gradativamente incorporados. E até o sushi ganhou versões moderninhas, enroladas em algas (nori), com direito a frutas e outros ingredientes coloridos.
O período de modernização coincidiu com a criação de regras de etiqueta que, ainda hoje, são respeitadas em ocasiões formais. “As normas mais rígidas prevaleceram até a Segunda Guerra, em todas as classes sociais”, diz Luci Fujimoto, especialista em etiqueta. No presente, a rigidez não é tanta e os encontros entre amigos são tão descontraídos quanto uma happy hour à brasileira. Mas, antes de se sentar à mesa com um autêntico japonês, vale a pena aprender a usar o o-hashi de maneira correta. Ou você vai pagar um mico milenar.

EXTRAS E CURIOSIDADES:

Um ritual, várias receitas
Veja uma típica refeição familiar da elite japonesa durante o período Edo (entre 1603 e 1867)

- No século 16, quando o tempurá surgiu, frito por imersão, desafiou a tradição japonesa de ausência de gordura na comida. Mas, em meados do século 19, sob influência ocidental, os japoneses passaram a apreciar receitas do gênero.

- Até hoje, é comum que cada membro da família tenha sua própria tigela de cerâmica. Elas sempre foram mais usadas que os pratos, pois facilitam o uso do o-hashi, especialmente no caso do arroz.

-Não havia sala de jantar. As mesas portáteis permitiam que a refeição fosse feita em qualquer cômodo, mas sempre seguindo a hierarquia. O chefe de família ficava no lugar de honra e os empregados do lado oposto.

-O macarrão conquistou o Japão a partir do século 7. Era feito e cortado em tiras por hábeis fazendeiros. No século 16, o udon, longo e oco, tornou-se bastante popular. Quase toda casa tinha uma mesa de pedra para seu preparo.

-O chá se disseminou no Japão no século 14. Um abade chamado Eisai foi convocado para curar a ressaca do shogun Sanetomo. Ele indicou a bebida como remédio. Funcionou – graças ao efeito da então desconhecida cafeína.

- As mesas baixas individuais surgiram no século 8. Em refeições com vários pratos, cada pessoa usava duas ou mais delas, sentada sobre uma almofada. No período Edo, um jantar de primeira classe tinha cinco mesas.
Dá uma proteína aíO primeiro relato a respeito do tofu, uma espécie de queijo de soja, é de 1183: proibidos de comer carne, os monges tinham nele uma fonte de proteína. A técnica de fabricação foi trazida da China.

Dois pauzinhos
Conheça melhor as varetas que servem de talheres

Manipular as hastes do o-hashi com habilidade é uma questão de honra – usado desde o século 8, o acessório foi privilégio da nobreza durante séculos. “Ele não deve ser mantido na boca, usado para empurrar objetos sobre a mesa ou apontar na direção de pessoas e muito menos espetado dentro das tigelas de arroz – este ritual é realizado quando morre alguém”, diz Luci Kinue Fujimoto, especialista em etiqueta japonesa. Uma regra básica: só a vareta de cima se move.

Precioso líquido
O molho de soja brasileiro é bem diferente do japonês
“A cozinha japonesa não é possível sem shoyu”, afirma o antropólogo japonês Naomici Ishige. Feito de soja, escuro e bem salgado, o molho de soja foi criado por volta do século 16. Já o missô, versão mais pastosa do molho, é mais antigo (do século 8), mas não tão famoso. Ambos sempre foram usados como tempero, adicionados ao peixe e aos vegetais, ou ainda dissolvidos em vinagre. No século 18, porém, o missô passou a ser usado exclusivamente como sopa – o que ocorre ainda hoje. Até o começo do século 20, toda cidade japonesa tinha sua própria fábrica de shoyu, enquanto o missô costumava ser feito em casa. Os japoneses que se mudaram para o Brasil logo deram um jeito de produzir ambos aqui também. Em 1915, o imigrante Eitaro Kanda inaugurou sua fábrica em Santos, com produção anual de 18 mil litros dos dois produtos. Mas a receita não era fiel à original – foi preciso adaptá-la às matérias-primas disponíveis. “As versões mais comuns eram o shoyu de tamari, fabricado com o soro do missô que ficava no fundo do barril e caramelo, e o shoyu de feijão”, afirma o professor Koichi Mori. Em 1996, o Brasil contava dez fabricantes de shoyu. E, curiosamente, o molho produzido aqui ainda é bem diferente do japonês. “Enquanto o original leva soja, trigo e sal, o brasileiro trocou o trigo por uma mistura de milho, melaço de cana e glutamato. O resultado é um produto mais salgado, que no Japão é considerado molho inglês”, diz Mori.

Cenário culinário
Fique por dentro de uma cozinha do Japão medieval

-No Japão da Idade Média, surgiu uma panela exclusiva para o preparo do arroz: a kamado. Funda, era feita de ferro e trazia uma pesada tampa de madeira – o que a transformava numa precursora da panela de pressão. Era encaixada no fogão a lenha e seu desenho bojudo fazia com que o calor se concentrasse no fundo, impedindo que a água caísse no fogo mesmo quando a tampa era levantada.

-Se os alimentos são comidos com pauzinhos, tê-los bem cortados é crucial. O manuseio das facas, chamadas de hôchô, foi bastante aprimorado no período Heian (794-1192), quando os anfitriões demonstravam sua habilidade com lâminas para distrair os convidados. Nos restaurantes do Japão, o conjunto de facas não é do estabelecimento, mas do chef – há um modelo para cada finalidade.

Kampai!
Beber saquê envolve um ritual cuidadoso

Para um japonês, o saquê não é uma mera bebida. É um nobre alimento líquido. Ele já era fabricado artesanalmente no Japão, a partir de arroz triturado exclusivamente por mãos femininas, no século 8. Duzentos anos depois, cerca de 15 tipos de saquê eram produzidos para a corte japonesa. Os banquetes oficiais eram divididos entre o momento de comer e o de beber – depois de tudo, se servia o saquê. Hoje, entretanto, ele costuma chegar à mesa primeiro. Depois vem a comida e, por último, o chá verde. “Por ser uma espécie de vinho de arroz, o japonês encara o saquê e o arroz como a mesma coisa e evita ter os dois juntos na boca”, diz o antropólogo japonês Naomici Ishige. As regras de etiqueta com o copo são rígidas. É proibido, por exemplo, inclinar o corpo em direção ao copo e, nas ocasiões formais, convém segurá-lo com as duas mãos. “Para o oriental, beber saquê é um gesto nobre que deve ser reverenciado”, ensina Luci Kinue Fujimoto, especialista em etiqueta japonesa. Um pouco mais descontraído é o brinde. Nesse momento, vale usar só uma das mãos e dizer kampai – que significa “saúde”.

Saiba mais:
Livro
The History and Culture of Japanese Food, Naomici Ishige, Kegan Paul, 2001
Conta, com muitos detalhes, a trajetória da cozinha japonesa – da pré-história até os dias de hoje.